sábado, junho 12, 2010

É à tarde

























                                                                                                                                   © Armando Isaac



É à tarde
quando a brisa transporta meus pensamentos
em ânsia de acasalarem com os teus 
que te procuro
Alongo meus olhos
do cimo do mastro dum barco naufragado
donde se vislumbra
tua casa de névoa
E sonho
casas cheias de gente que se amam
na vaga esperança 
de poder sorrir-te
Quando
a noite vem dizer-me que são horas
deixo de procurar pelas ruas
amarro-me ao teu corpo ausente
Que posso fazer amor
sem o lençol de pétalas aveludadas
sem o perfume das rosas amarelas
* Do livro “Rosas na Hospedaria do Vento” - Fernando Antunes

quinta-feira, junho 10, 2010

Memórias de um passado....?






                                                                                                                                     © Armando Isaac


O que os terá reunido naquele momento? Memórias de um passado em que conviveram? Ou, simplesmente, a crise que os retirou de um descanso forçado imposto pela História, para, em troco de alguns rublos – a vida também deve ser difícil n’ “Outro Mundo” (de outra forma não teria este nome) – complementarem as suas reformas. Não o sabemos, mas isso, também, pouco nos interessa. Ironicamente, ou talvez não, não deixam de ser curiosas as posturas dos protagonistas. Lenine, parece cabisbaixo, certamente surpreendido pelo estado da nova Rússia, agarrando-se desesperadamente a um sonho, que sustentou, durante décadas, utopias e combates. Estaline, aparece-nos com a bandeira desfraldada, sem convicção, como se a altura do pronunciamento já se tivesse esgotado e fosse tempo de regressar a casa. Nicolau II, ainda, revela alguma dignidade (aquela que, segundo os biógrafos lhe terá faltado no momento da morte), talvez porque o actor que lhe veste a pele seja mais empenhado ou, então, ainda esteja preso a convicções. De que falarão? Provavelmente do tempo, da crise (inevitavelmente) ou, muito simplesmente, da postura que deverão adoptar para se tornarem alvos fáceis de um fotógrafo competente e curioso.
Texto de Alcino Pedrosa

segunda-feira, junho 07, 2010

Mas que Deus és tu?




































© Armando Isaac




Mas que Deus és tu
no qual acredito e onde mais e mais
deposito paixão fervorosa?
Mas que faço
a este calor de deserto
que agora habita minha cara
a estes raios de sol
que entraram em meu peito?
*Do livro “Rosas na hospedaria do vento” - Fernando Antunes

sábado, junho 05, 2010

O SONHO

























                                                                                                                                  © Armando Isaac


Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não Chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.


Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.


Chegamos? Não chegamos?


- Partimos. Vamos. Somos.




Poema de Sebastião da Gama

sexta-feira, junho 04, 2010

A Tristeza




































                                                                                                                                      © Armando Isaac
A tristeza, se deitada no arco-íris, é alegria?
A tristeza vem desde o berço 
percorrendo o caminho até ao final da ilusão 
não é uma tristeza triste é um estado permanente 
com o qual coabito docemente
Quando a vida ainda era leve, alegre, e solto o conviver 
num dia de pretensa chuva, junto ao mar, olhei o arco-íris 
ao qual brindei com oferendas e preces, para me proteger
Nesse espectro de cor, a cor azulada 
gravou sem o saber, a amizade por esta tristeza adivinhada 
o tempo foi passando a afeição cimentando o Outono chegando 
e o azul do arco-celeste a esta tristeza endémica se abrindo 
Hoje digo alegria, porque o arco-íris sempre me quis 
e a tristeza deitada no seu seio, diz-se feliz 
* Do Livro “Perguntas ao Outono” - Fernando Antunes

domingo, maio 30, 2010

Porta do Templo




































                                                      © Armando Isaac





Sento-me à porta do Templo
fumo pelo cachimbo de água
o ópio da minha espera.
Vejo entrarem coisas perecíveis
Com os olhos rasos de água
o cérebro enevoado.
Voo no colo de uma águia
que queima as asas no sol
deixando-me na órbita
de coisa nenhuma.
Espero a Deusa do Amor
que consumirá meu corpo
e lhe dará a forma da felicidade
* Do livro “Rosas na Hospedaria do Vento” - Fernando Antunes

sábado, maio 29, 2010

Era à Tarde

                                                                                                                 © Armando Isaac
Era à tarde
que gostava de sentir
a areia molhada, o som do mar, do vento
depois
o céu ia do vermelho a cinza
então
metia as forças encontradas no bolso
regressava à casa da praia
*Poema do livro Casa da Praia - Fernando Antunes