quinta-feira, junho 10, 2010

Memórias de um passado....?






                                                                                                                                     © Armando Isaac


O que os terá reunido naquele momento? Memórias de um passado em que conviveram? Ou, simplesmente, a crise que os retirou de um descanso forçado imposto pela História, para, em troco de alguns rublos – a vida também deve ser difícil n’ “Outro Mundo” (de outra forma não teria este nome) – complementarem as suas reformas. Não o sabemos, mas isso, também, pouco nos interessa. Ironicamente, ou talvez não, não deixam de ser curiosas as posturas dos protagonistas. Lenine, parece cabisbaixo, certamente surpreendido pelo estado da nova Rússia, agarrando-se desesperadamente a um sonho, que sustentou, durante décadas, utopias e combates. Estaline, aparece-nos com a bandeira desfraldada, sem convicção, como se a altura do pronunciamento já se tivesse esgotado e fosse tempo de regressar a casa. Nicolau II, ainda, revela alguma dignidade (aquela que, segundo os biógrafos lhe terá faltado no momento da morte), talvez porque o actor que lhe veste a pele seja mais empenhado ou, então, ainda esteja preso a convicções. De que falarão? Provavelmente do tempo, da crise (inevitavelmente) ou, muito simplesmente, da postura que deverão adoptar para se tornarem alvos fáceis de um fotógrafo competente e curioso.
Texto de Alcino Pedrosa

segunda-feira, junho 07, 2010

Mas que Deus és tu?




































© Armando Isaac




Mas que Deus és tu
no qual acredito e onde mais e mais
deposito paixão fervorosa?
Mas que faço
a este calor de deserto
que agora habita minha cara
a estes raios de sol
que entraram em meu peito?
*Do livro “Rosas na hospedaria do vento” - Fernando Antunes

sábado, junho 05, 2010

O SONHO

























                                                                                                                                  © Armando Isaac


Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não Chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.


Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.


Chegamos? Não chegamos?


- Partimos. Vamos. Somos.




Poema de Sebastião da Gama

sexta-feira, junho 04, 2010

A Tristeza




































                                                                                                                                      © Armando Isaac
A tristeza, se deitada no arco-íris, é alegria?
A tristeza vem desde o berço 
percorrendo o caminho até ao final da ilusão 
não é uma tristeza triste é um estado permanente 
com o qual coabito docemente
Quando a vida ainda era leve, alegre, e solto o conviver 
num dia de pretensa chuva, junto ao mar, olhei o arco-íris 
ao qual brindei com oferendas e preces, para me proteger
Nesse espectro de cor, a cor azulada 
gravou sem o saber, a amizade por esta tristeza adivinhada 
o tempo foi passando a afeição cimentando o Outono chegando 
e o azul do arco-celeste a esta tristeza endémica se abrindo 
Hoje digo alegria, porque o arco-íris sempre me quis 
e a tristeza deitada no seu seio, diz-se feliz 
* Do Livro “Perguntas ao Outono” - Fernando Antunes

domingo, maio 30, 2010

Porta do Templo




































                                                      © Armando Isaac





Sento-me à porta do Templo
fumo pelo cachimbo de água
o ópio da minha espera.
Vejo entrarem coisas perecíveis
Com os olhos rasos de água
o cérebro enevoado.
Voo no colo de uma águia
que queima as asas no sol
deixando-me na órbita
de coisa nenhuma.
Espero a Deusa do Amor
que consumirá meu corpo
e lhe dará a forma da felicidade
* Do livro “Rosas na Hospedaria do Vento” - Fernando Antunes

sábado, maio 29, 2010

Era à Tarde

                                                                                                                 © Armando Isaac
Era à tarde
que gostava de sentir
a areia molhada, o som do mar, do vento
depois
o céu ia do vermelho a cinza
então
metia as forças encontradas no bolso
regressava à casa da praia
*Poema do livro Casa da Praia - Fernando Antunes

domingo, maio 23, 2010

O Porto sabes... 1

























                                                                                                                              © Armando Isaac









O Porto sabes...
Eu sei.
É um rosto
pintalgado de estrelas
com olhos de noite
e os tufos brancos, bonitos
numa cabeleira curta, aos bicos
É o sorriso
a voz ciciada
aquele mar de espanto
a noite enamorada
é o pôr de sol em tardes de Verão
de calma e solidão
É o rendilhado das pontes
e os favos da ribeira
subindo os montes
em alegre brincadeira
é as pétalas de rosas com voz
que se miram e espelham na foz
Eu sei.
Saberá quem despertou a saudade
Em meu peito?





© Fernando Antunes