segunda-feira, abril 12, 2010

Praia Deserta
























No sossego desta praia deserta, acalmo olhando o mar
pensamento vagabunda no divagar
Apenas esta luz cinza e vermelha, deixa de ser dia, noite tão pouco
incipiente, promíscua, meu sufoco
Que se esfuma e se transmuta na serenidade do vazio curador
o eu se liberta deste torpor
Então entro em ti, no lugar onde estás, meu amor, sem que o vejas     
onde é urgente que estejas
*Poema do livro Fragmentos do Silêncio

© Foto: Armando Isaac; Poema: Fernando Antunes

sexta-feira, abril 09, 2010

Gaivota


























Há um fio de silêncio entre a imagem e a recordação
percurso de assumida solidão
Em dias de bruma cinzenta não perguntes porque voa a gaivota
poisando nessa rocha ignota
Porque o perfume do rosmaninho e o acre odor da maresia
são toda a minha alegria

Há tanta esperança nessa praia deserta nesse mar salgado
onde me transformo em cavalo alado
Porto de abrigo natural, essa é a paisagem que dá o ser
a uma grande amizade sempre a crescer
* Poema do livro Fragmentos do Silêncio


© Foto: Armando Isaac; Poema: Fernando Antunes

sexta-feira, março 26, 2010

Este é o mar...


























Este é o mar que me desfez
nos momentos de irreal lucidez
Torna-se necessário partir nas asas do vento
para a terra do devir
Aí pelo teu nome posso gritar
é aí que te posso amar
*Poema do livro Fragmentos do silêncio

© Foto: Armando Isaac; Poema: Fernando Antunes

segunda-feira, março 08, 2010

Deixa









Deixa-me avistar mais além mesmo que os olhos apenas vejam o chão
ficar com as ruas e as casas da cidade, ocupar a minha solidão
Deixa-me lobrigar horizontes ver oceanos e as estrelas do céu
ficar nesse vazio humano, ouvindo o silêncio, ser eu
Deixa-me o vento, todas as nuvens do céu que o mundo tem 
ficar com os pingos de chuva que não são de ninguém 
Deixa-me ver, mesmo sem olhar, os contornos da multidão
ficar com todas as mulheres que passam, doce ilusão
Deixa-me caminhar descalço pela areia da praia deserta
ficar absorto pelo que vejo, a mente desperta 
Deixa-me esta ânsia esfomeada pela luz interior, sonho sem sono
vá lá, deixa-me ficar, do mundo, com todas as coisas sem dono


© Foto: Armando Isaac; Poema: Fernando Antunes

sábado, março 06, 2010

O Poeta



Minha poesia é triste porque nascida
das reviravoltas da vida
dum doce amargo, dolorosa
arrebatada ao coração, espinhosa
Canto à ternura e aos afectos
ao silêncio e à solidão
canto alegrias e tristezas
de amigos e amantes
falando do meu amor 
por esses seres amigantes
A minha poesia triste
é carinho de verdade
hino aos que me rodeiam
antevisão da saudade
Nasce de um ser só, tantos amigos à mão
a alma adivinhando o fim
profunda antecipação
por isso é de enorme tristeza, não procurada
mas jamais se dirá
que é poesia desgraçada



© Foto: Armando Isaac; Poema: Fernando Antunes

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Que Ouves?

  

Que ouves?
talvez seja um canoa invisível que teus olhos não abarcam 
um casal de patos selvagens, na curva do rio, em dança amorosa 
nesta doce manhã deliberadamente brumosa 
será o doce choro das árvores despidas, engrossando as águas do rio 
o murmurar dos pássaros em seus ninhos, esperando pelo estio 
Que ouves?
talvez sejam os imaginários postilhões do horizonte 
anunciando que a densa neblina vai chegar 
ou a nostálgica luz cinza que dá esse encanto, ao teu olhar 
será o silêncio desta escassa luz e tesouros escondidos 
o desejo desta paz, procura incessante dos solitários perdidos
Que ouves?
talvez seja o ambicionado paraíso que tens perante ti 
que o tenhas encontrado sem ter dado conta 
ou um compasso de espera nessa vida de barata tonta 
será que te embebedas do tesouro que os olhos vislumbram 
com toda esta beleza de Outono, teus sentidos se perturbam   
Ou será que no esforço longínquo de procurar no Outono, na solidão 
não é realidade, esta paisagem, é sonho da tua visão?




© Poema: Fernando Antunes; Foto: Armando Isaac

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Há um lugar


Há um lugar
que permanece inalterado desde que o conheço 
lugar que está no meu coração desde o berço
Lugar da minha infância, onde aprendi a mergulhar com o silêncio na mão 
onde os pescadores sempre regressam  e os barcos  baloiçam na solidão   
Lugar onde a imensa nobreza dos homens ganha dimensão 
Neptunos de um mar menor na labuta do ganha-pão  
Lugar onde volto sempre que posso, e me sinto de novo menino 
sentado nas tábuas desse cais sorvendo o ar marinho 
Lugar onde ao sol poente nos esquecemos do tempo, sentimos o cheiro a maresia 
onde nos chega a paz, que merecemos, e a brisa tem o aroma da melancolia
Há um lugar
onde no cais os barcos descansam, os homens sonham olhando o entardecer 
onde o rio se torna laranja e o dia, sorrindo, diz que vai morrer 

© Foto: Armando Isaac; Poema: Fernando Antunes